A revolução do amor

Recentemente, li um livro interessantíssimo do filósofo francês Luc Ferry, chamado A Revolução do Amor: Por uma Espiritualidade Laica. Aliás, recomendo a leitura. Este autor prega que está em curso um novo iluminismo, cujo principal expediente é o amor que medeia as relações cotidianas das pessoas e que dá sentido à existência humana. Para Luc Ferry, “hoje, no Ocidente, ninguém arrisca a própria vida para defender um Deus, uma pátria ou um ideal de revolução. Mas vale a pena se arriscar para defender aqueles que amamos. Vivemos a revolução do amor, e esta é a melhor notícia do milênio.”

A expressão amor é plurívoca em sua definição. Pode ser relacionada ao amor eros, que diz respeito à paixão carnal entre duas pessoas que se desejam; pode também ser entendida como o amor filosófico, que se refere à relação humana de querer o bem do outro, de se entregar a fazer o bem. É o amor fraternal, maternal, paternal. E há, ainda, o amor ágape, que não se gaba, que não se enfuna, que supera todas as coisas, que perdoa todas as coisas, que não procura seus próprios interesses, que dá sem receber, enfim, um amor divino.

Muito já se disse sobre o amor. Camões o retratou com uma expressão poética inigualável. O apóstolo Paulo, em sua primeira Carta aos Coríntios, também discorreu sobre este amor. O amálgama destas duas vozes rendeu a belíssima “Monte Castelo”, interpretada pela Legião Urbana.

Em tempo, como disse em outro texto, desafio alguém a apresentar uma ideologia moderna que não tenha um fragmento da pregação de Jesus Cristo. E o amor é a tônica de seu discurso, resumindo-se em dois dogmas: amar a Deus e ao próximo!

De fato, o amor é revolucionário. Ele liberta dos medos, dá força àquele que está desesperado, acalenta a alma do amado, gera no amante uma sensação de bem-estar e permite a descoberta de que se entregar torna a vida mais completa. Põe limites ao egoísmo, consente que aprendamos com a pessoa amada e ensinemos ao amante. Gera tolerância e perdão.

O amor “acalma, acolhe a alma” e “ajuda a viver”. Como é bom amar! Como é bom ser amado! Olho nos olhos de minha filha, e é nítido que não se trata apenas de um mirar! É, antes de tudo, um fitar com emoção, com carinho, com entrega, com dedicação plena.

Nada se compara ao amor (m)paterno. É pleno, é convicto, é transbordante. Amar nos engrandece. Apoiar um amigo, tê-lo por perto, ajudá-lo quando necessário… Tudo isso é enobrecedor. Aliás, quando ajudamos alguém, parece que quem de fato ganhou algo fomos nós próprios e não o ajudado, tamanha a dimensão que isso gera.

Li recentemente um reflexivo texto de um professor amigo. Dizia ele que amar o próximo é singelamente simples, posto que o próximo é parecido conosco. Por ser próximo, tem as mesmas raízes culturais, geralmente as mesmas ideologias, o mesmo padrão de comportamento social. No entanto, o grande desafio está em amar o distante.

O distante choca! O distante é diferente! O distante não é o ideal que temos como planejamento de vida! Sim, e daí? O diferente é criatura humana como todos os outros. Se tem hábitos, comportamentos, posição social, cultural e religiosa diferentes da nossa, por que não aceitá-lo? Amar não é apenas dar carinho físico e ter contato direto. Amar é respeitar, é tolerar! E, como disse o italiano Gustavo Zagrebelsky, o único princípio absoluto é o da tolerância.

Tolerar não é concordar! Tolerar é admitir que haja diferença, que respeitemos a posição do outro e que busquemos o respeito à nossa posição. O que não aceita a diferença não ama. Arrouba-se na arrogância de imaginar que tem a verdade “verdadeira” sobre as questões da vida e que aqueles que não são iguais a ele são sempre os errados. Nestes tempos de “modernidade líquida”, na feliz proposta do austríaco Zygmunt Bauman, não podemos ter por verdade absoluta uma proposta quando outros paradigmas existem.

A maioria nem sempre tem razão. Esta aceitou e embalou o nazismo… Foi a maioria que permitiu que um ladrão fosse solto (Barrabás) e que, em seu lugar, Jesus, um simples pregador de massas, viesse a ser morto.

Tolerar a diferença não é apenas a tônica do amor. É também reconhecer que nossa proposta de vida é boa (ou talvez seja boa) para nós. Mas outros têm o direito de discordar dela. Praticar a intolerância pode ser perigoso. Os que hoje são intolerantes podem amanhã ser tratados da mesma forma.

JESUALDO EDUARDO DE ALMEIDA JUNIOR. Advogado. Prof. de Direito. Mestre e Doutor em Sistema Constitucional de Garantia de Direitos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CONTATO

Deixe sua mensagem

Nossos advogados estão à disposição para responder suas dúvidas e prestar a assistência necessária.